+55 11 98439 7810|wilson@ioparlo.com.br

Transformando experiência em saber compartilhado

Quarta-feira, 09 de Agosto de 2017

Do século do EU ao século do NÓS

Recentemente, assisti ao documentário “O Século do EU”, de Adam Curtis. Intrigante, cativante e envolvente, a obra analisa como os governos ocidentais e as corporações se utilizaram das teorias da psicanálise para usar o inconsciente em sua irracionalidade e incentivar a economia e o mercado no desenvolvimento de uma sociedade de consumo para, também, dentro do possível, controlar e manipular os desejos das grandes massas. 

O mundo dos negócios e político tem usado técnicas psicológicas para ler e incentivar os desejos do público, a fim de tornar seus produtos ou discursos sedutores para seu público alvo. Da publicidade ao coaching, a mente humana é esquadrinhada em cada um de seus cantos com o propósito de poder conhecer mais e melhor tudo aquilo que leva à decisão de consumo.

As palavras de Paul Mazur, um importante banqueiro de Wall Street, que trabalhava para o grupo Lehman Brothers, são significativas e até mesmo chocantes: “Temos que mudar a América de uma cultura de necessidades para uma cultura de desejos. As pessoas devem ser treinadas a desejar, querer coisas novas, mesmo antes dos antigos serem totalmente consumidos […] os desejos do homem devem ofuscar suas necessidades”.

 

O documentário nos revela como as nossas vidas são impactadas pela propaganda e como os governos e as empresas usam esses discursos subliminares para atingir seus objetivos, sejam eles políticos ou comerciais. Mas os avanços não param e de lá para cá, no Século do NÓS, o que estamos assistindo e observando de forma surpreendente é a velocidade das mudanças de modelos de negócios e do comportamento das pessoas. Podemos dizer que vivemos em um mundo muito mais conectado pelas evoluções da era digital e capaz de se beneficiar com a imensa quantidade de dados disponíveis para o usuário do universo virtual, sendo que apenas estamos acessando o poder da inteligência artificial e da manipulação de enormes quantidades de dados (big data).

 

Nesse contexto, pese a previsível perda de vínculos por conta da tecnologia, percebe-se positivamente a ampliação de consciência –  política, econômica e social – na direção de modelos  mais colaborativos, compartilhados. Independentemente de nossa vontade, o que se vê é uma sociedade tentando encontrar novas maneiras de harmonizar aspectos contrastantes ligados à competitividade global, ao consumo, à agressividade e à intolerância, ao meio ambiente, à sustentabilidade.

 

Vale registrar que o “bombardeio” das demandas de consumo não estimula somente ao comprar, ao adquirir, ao ter, mas de alguma forma ou em mensagem subliminar acaba estimulando a ânsia frenética em adquirir informações e conhecimentos por novidades ou alterações em produtos e serviços já existentes.

 

O padrão de comportamento voltado para o consumo é confrontado pela necessidade de dar sustentabilidade à nossa existência individual e coletiva e torna cada vez mais necessário, antes de consumir, articular o binômio necessidade x desejo. O Lowsumerism, movimento mais recente de contracultura, é um bom exemplo de aplicação dessa articulação que vem ganhando espaço consciente ou inconscientemente no pensamento popular.

 

A consequência é que há uma enormidade de pessoas que, de fato, não percebem, ou melhor, não sentem o tempo passar e, de repente, se assustam ao perceber que estão perto do final do segundo tempo e que o resultado arrisca se voltar contra elas. Quando o balanço se refere à área do conhecimento da vivência e da experiência de vida, a conta se torna negativa ao demonstrar que ignoramos o maior tesouro de ferramentas que se encontra em nós mesmos: a nossa essência.

 

Nunca é tarde para estarmos vigilantes e perceber que dispomos de uma força interior para enfrentar momentos difíceis, mudanças, planejadas ou não, e para nos impulsionar na direção de escolhas que seguem as direções e sentidos sintonizados na dimensão de fazer parte de um todo universal.

 

Publicado originalmente pela Revista VeroClique aqui para ler.